Fala Reitor
A UFGD, na visão do reitor Damião Duque de Farias
“A criação da UFGD deve ser vista sob vários aspectos, um deles é a questão da oportunidade para a juventude e, na medida em que nós temos a possibilidade de um crescimento de números de vagas tanto da graduação quanto da pós graduação, e a abertura desses novos sete cursos dá uma idéia da perspectiva de uma universidade forte nos próximos anos. Com os novos cursos abrem-se também oportunidades na formação profissional em áreas não tradicionais – já que as instituições particulares investem em cursos que exigem inicialmente baixos custos ou naquelas áreas onde já foram criadas o que poderíamos chamar de vantagens locacionais pelo aporte de estruturas (bibliotecas, laboratórios, postos de trabalho) e pessoal formado na graduação e pós-graduação pelas Universidades Públicas.”
Para se chegar a essa proposição – e criar, por exemplo, os cursos de Ciências Sociais, Engenharias da Produção e de Alimentos, Química, Gestão Ambiental, Licenciatura Indígena e de Zootecnia – o Reitor da Universidade, professor doutor Damião Duque de Farias, lembra nessa entrevista ao jornal da UFGD, que foi necessário todo um acompanhamento por parte da equipe de implantação desse projeto com relação àquelas discussões organizadas pela Secretaria de Planejamento do Governo do Estado. “Naquele debate mais sistemático sobre o desenvolvimento de Mato Grosso do Sul, trabalho inédito e louvável do Governo, obtivemos informações qualitativas e foi possível constatar uma deficiência forte do Mato Grosso do Sul em relação à mão-de-obra qualificada e de processos tecnológicos que permitissem um novo patamar econômico e social, sobretudo pensando no desenvolvimento industrial e agro industrial para o Estado”, cuja discussão coadunava com a impressão que a sociedade tem, ou seja: “Quando nós ouvimos falar no desenvolvimento de MS, sempre era retomada a generalização sobre nossas deficiências estruturais, mas não havia nenhuma pesquisa articulada, que respondesse de modo sistemático o leque e o tamanho de tais deficiências.”
Por isso nós na UFGD decidimos enfrentar esse desafio, nos organizando para ser uma Instituição capaz de responder às demandas estruturantes para um novo padrão de produção e distribuição de riquezas. Visivelmente, uma das áreas que vão estar envolvidas mais diretamente, é a área da engenharia; de uma engenharia de ponta, vinculada à produção de ciência e tecnologia para a produção agroindustrial e industrial, “e eu acho que essa é uma possibilidade que a Universidade pública tem condições de produzir, porque ela inclusive é uma aposta, ela não está pronta em um mercado já existente, estamos pensando sobretudo no futuro, em um projeto que está às vésperas de acontecer, mas que precisa de ação pública, então é do Estado, através da Universidade, a responsabilidade em determinadas respostas”.
Definindo vocações para atender o mercado
Na UFGD, o aluno vai ter que trabalhar com a engenharia da computação, mecânica e isso em um futuro não muito longo. São duas coisas distintas, sublinha o reitor: “Primeiro, as novas oportunidades; e, segundo, o suporte das ciências e tecnologias ao desenvolvimento social amplo e, paralelamente a isso, a articulação com o mercado, respondendo aos anseios do setor privado. Isso significa que a Universidade não será refém dos interesses privados, mas também não pode estar de costas para ele.” O Reitor Damião lembra de uma reunião em que participou, no Sindicato Rural de Dourados, sobre energia, o uso do biodiesel, onde foram apresentadas pelo menos dez experiências, cujo empirismo ressente-se de apoio científico sistemático. “Então, esse é um trabalho que as instituições de pesquisas têm que fazer. A sociedade está precisando, mas tem um problema no Brasil que é a articulação da iniciativa privada ou dos agentes da sociedade civil com a universidade, essa relação ainda não conseguiu ser dinâmica o quanto seria necessário. Temos que aprender a construir uma ponte de negociação entre os diversos setores da sociedade e da iniciativa privada com a Universidade. Há certo distanciamento que precisa ser superado”.
Na opinião do reitor, as próprias empresas terão um papel importante na construção de um diálogo frequente “para que a Universidade possa refletir sobre as demandas e construir as respostas adequadas”. Esse viés, que não é de curto prazo, é umas das funções que a UFGD pode ter. Agora não é só com esse viés da busca de maior produtividade que a Universidade se preocupa, tem outro viés que é da promoção humana, que abra os diferentes tipos de riquezas produzidas, não apenas econômica, para os amplos setores da sociedade.
O desafio com a questão indígena
Há outros aspectos que podemos pensar na UFGD. A questão indígena é muito importante, um desafio para o Estado porque a educação privada, com raras exceções, não vai enfrentar porque não é uma área de retorno financeiro. Percebe-se claramente que essas comunidades indígenas têm se fortalecido no País inteiro e isso acontece apesar da integração das mesmas na sociedade; elas têm se organizado enquanto população e identidade cultural, e aí sim exige do Estado uma resposta diferenciada, porque não pode ser uma resposta dentro dos padrões da sociedade não índia. A instituição pública, como a UFGD, tem por obrigação social e histórica, condições de investir em pesquisa e estudos. Como estamos em uma região que possui essa característica cultural, com a presença crescente de população indígena, com diversos e graves problemas a serem considerados e, não obstante, com uma organização política e social própria crescente, a UFGD assumiu essa responsabilidade, criando, inclusive, o Curso de Licenciatura Indígena Guarani- Caiuá.
A UFGD no contexto da sociedade
Apesar de sua breve existência, a Universidade tem participado dos Conselhos que já existem organizados, como os da saúde, planejamento urbano, conselho indigenista, conselho da mulher, da população negra, da educação... Essa é a maneira mais efetiva que a Universidade tem para colocar o seu conhecimento a disposição da sociedade política e da sociedade civil: ajudando na formação de políticas públicas. Quanto mais nós tivermos um conjunto de pesquisadores, conhecimento acumulado, e quanto mais esse conhecimento versar sobre os problemas existentes na cidade e região de Dourados, bem como de nosso Mato Grosso do Sul e mesmo do país e continente, melhor será a resposta e a nossa contribuição nas decisões em diferentes esferas, visando o desenvolvimento e a promoção do homem.
A UFGD, junto com outras instituições de ensino superior, vai primar por essa participação, atendendo a sua vocação democrática. O debate que a Universidade faz é sempre no sentido de melhorar e de contribuir, e esse público universitário, docentes, técnicos e alunos, sempre vai estar preparado para exercer uma crítica sobre aquilo que o Estado e a sociedade realizam. E quanto mais gerar uma cultura de resistência, de crítica e de inovação, melhor será a resposta dos agentes responsáveis.
A presença de um público universitário crescente em nossa cidade será responsável por uma exigência maior quanto às políticas sociais e quanto às ações dos agentes privados, seja na educação, na saúde, na cultura, no meio ambiente, nos transportes, obtendo-se como resultado de longo prazo melhorias na qualidade de vida para todos os cidadãos.
Além disso, vai ter um processo de acomodação/adequação com as outras instituições, sobretudo quando tivermos organizados os nossos programas de pós-graduação (pelo menos 15 programas nos próximos dois anos). Esses programas, por meio de pesquisas e debates, irão influenciar a opinião pública e os dirigentes sobre os temas relevantes, tanto aqueles da produção econômica quanto outros de maior interesse para a comunidade. Os nossos programas de pós-graduação, e os das outras instituições, vão direcionar o debate acadêmico, a produção do conhecimento e, possivelmente, as respectivas ações em nossa cidade e da região.
Outra forma de relacionamento com a sociedade, se dará por meio da articulação social, será através de fóruns universitários destinados ao ensino, a pesquisas e a pós-graduação, com repercussão no ensino de outras instituições e níveis de ensino, porque o professor de tais instâncias serão nossos alunos de pós-graduação, levando o conhecimento produzido aqui para o interior de seus locais de trabalho. Devemos, ainda, considerar as imensas possibilidades de ações de extensão e atividades culturais que estão sendo realizadas e que crescerão com o tempo, atendendo amplos setores sociais, com os meios mais diversos que a Universidade possui.
Investimentos que vão gerar riqueza regional
Os investimentos previstos da Universidade na região para o ano que vem - de R$ 44 milhões, mesmo considerando que todo esse recurso não fica em Dourados, já que uma parcela da taxa de lucro, são empresas de fora que ganham, ainda assim são recursos em volume considerável para fomentar a economia local e regional. É um potencial que precisa ser refletido, não é um recurso que entra, é gasto e desaparece, pois ele gera produção de riquezas que repercutem em amplos setores da economia. Penso que seja necessário a própria UFGD com seus pesquisadores fazerem um estudo sobre as repercussões de sua presença em nossa economia.
Quando tivermos uma folha completa, e um orçamento anual na capacidade de 80 milhões de reais, a capacidade de gerar benefícios da UFGD será bastante grande; além disso, quando tivermos o projeto completo, vamos ter uma população de dez mil alunos, e desses dez mil, sete a oito mil serão oriundos de outras cidades e regiões do país, cada um com um certo orçamento familiar que é posto a disposição dos estudos. Assim, o setor universitário será talvez o mais influente e decisivo na economia local, considerando outros aspectos já analisados anteriormente.
Assumindo dificuldades e investindo em melhorias
É preciso admitir a existência de graves problemas que existiam na UFMS de Dourados. Nós estamos enfrentando todos esses problemas. É evidente que não se pode esperar que eles sejam superados da noite para o dia, em um passe de mágica. Mas, um a um eles estão ou serão vencidos pelo nosso trabalho e com os recursos que o Governo Federal tem colocado a nossa disposição. O principal problema era a falta de docentes, já está sendo amenizado. Há uma previsão de um novo concurso para o ano que vem e vamos ter pelo menos mais 80 vagas que resolverá quase cem por cento a questão para quase todos os cursos, ficando a necessidade de maior adequação para os cursos novos.
Os investimentos colocados a nossa disposição pelo governo federal produzirão um grande efeito positivo na UFGD. Só de equipamentos para laboratórios estamos investindo 4 milhões de reais. Antes era difícil obtermos um investimento de dez mil reais. Quando fechar o ano que vem, todos os cursos antigos estarão com uma estrutura equilibrada e vamos precisar cuidar um pouco melhor dos cursos que estamos criando, que vão precisar de investimentos pesados e de contratação de pessoal.
Diálogo aberto e permanente com os Governos
A universidade não é uma organização da sociedade civil e sim do Estado e ela não pode ter uma relação diferenciada com os diferentes governos, opina o reitor. “Vamos ter que negociar com o novo governo e com todas as autoridades da sociedade política, entendendo que a UFGD não é patrimônio de uma ideologia, seita, partido, mas é patrimônio da sociedade” com uma postura que é de exigência de recursos para as necessidades da extensão, ensino e pesquisa. “Seja qual for o governo, seja qual for a ideologia partidária, a universidade tem que ter uma relação de diálogo permanente”.
No caso do Governo estadual, diz o Reitor “que no caso de Mato Grosso do Sul ele também tem esse compromisso, com o desenvolvimento de ciências e tecnologia, e vai procurar também ter esse diálogo com a UFGD”, até porque a Universidade não tem recursos próprios, como ocorrem com as instituições privadas, “e dependemos dos recursos do Estado e da União para continuar gerando e disseminando o conhecimento”.
