Há
mais ou menos dez anos surgiu um fenômeno chamado Internet.
E com ela a facilidade de se copiar material para a elaboração
de trabalhos escolares, uma prática condenável
mas, nem sempre, fácil de identificar. No entanto,
é necessário lembrar que desde que existem publicações
- sejam livros, jornais, revistas, etc. - houve a possibilidade
de cópia. A rede mundial de computadores e a Informática
ao alcance das pessoas apenas facilitou esse processo.
A Internet é uma grande biblioteca na qual qualquer
pessoa pode colocar um texto. Assim, como na biblioteca, é
necessário que as pessoas saibam como se virar lá
dentro, como olhar as referências de um livro, de revistas,
como utilizar o material disponível e como manipulá-lo,
já que isso também é necessário
no plano virtual. "É preciso difundir uma cultura
de que cópia não se permite. O plágio
existe, isso é algo fraco não só culturalmente,
mas também juridicamente no Brasil", aponta o
professor do departamento de Relações Internacionais
da UnB (Universidade de Brasília) Carlos Pio, que há
quatro anos descobriu plágio com a ajuda da Internet
em trabalhos de 11 alunos da pós-graduação
e os reprovou.
Com a possibilidade de simplesmente mandar imprimir ou copiar
eletronicamente um texto que está na tela do monitor
- e que provavelmente apareceu após uma breve pesquisa
em sites de busca como o Google -, o trabalho que o estudante
deveria empenhar para realizar uma pesquisa escolar, leitura
e escrita acaba sendo deixado de lado, já que a praticidade
desse meio permite resultados muito rápidos sem grande
esforço. O problema é que tal prática
é errada e ilegal, já que a propriedade intelectual
é sempre protegida, tanto pela lei como pelos princípios
éticos e profissionais. Mas, como os professores devem
trabalhar essa questão em sala de aula? Como devem
orientar seus alunos? "Uma das alternativas é
que o professor trabalhe com conceitos, como a ética
e moral com seus alunos", aconselha a professora do Departamento
de Metodologia de Ensino da UFSCar (Universidade Federal de
São Carlos) Regina Maria Simões Puccinelli Tancrede.
Além disso, o professor não deve simplesmente
pedir determinado trabalho, dizer o tema e não dar
nenhuma orientação. É necessário
ensinar como se faz uma pesquisa na Internet, quais são
os sites com conteúdo confiável, pois, segundo
um levantamento recente feito pela Escola do Futuro da USP
e pela intranet educacional Ensino.net, 10% dos sites brasileiros
que se posicionam como conteúdo educativo, cultural
ou artístico são de má qualidade. Ensinar
como se colocam referências bibliográficas em
um trabalho, explicar as diferenças entre citação
e paráfrase, discutir a questão da propriedade
intelectual, quais são os princípios éticos
que estão envolvidos na questão do plágio,
tudo isso é fundamental para despertar nos alunos a
vontade de fazer um trabalho. "Além disso, os
professores devem ter o costume de ler os trabalhos que recebem.
Eu desconfio que há por parte do professor um pacto
de mediocridade. Quer dizer, o professor finge que ensina
e corrige e o aluno finge que aprende", opina Pio. Regina
considera que se o professor for bem informado, vai conseguir
dar informações adequadas aos alunos.
"Se o professor não estiver acostumado a ler o
trabalho dos alunos, a discutir e a comparar o trabalho de
um com outro, ele vai ser enganado, talvez", aponta a
professora da UFSCar. No flagra Pio diz que desenvolveu algumas
técnicas durante os anos de docência na correção
dos trabalhos. "Quando o professor se dispuser a ler
atentamente aquilo que recebe - o que é cada vez mais
difícil tendo em vista o número de trabalhos
que o professor tem de ler -, ele vai percebendo intuitivamente
alguns elementos que facilitam muito a descoberta do plágio:
se o trabalho está muito bom, não tem citação
nenhuma; se for muito genérico em relação
àquilo que foi pedido; se tiver diferença de
qualidade na escrita, na redação, um trecho
com português muito bom outro com o português
muito ruim; e, por incrível que pareça, diferença
nas fontes, o que é muito óbvio, mas acontece.
Então, essas coisas chamam a atenção",
explica.
A Internet também é uma excelente amiga na hora
de se descobrir um plágio. Caso o professor desconfie
de algum parágrafo do trabalho, é só
escrever as principais palavras ou as mais rebuscadas em algum
site de busca que ele trará frases que contenham os
termos. Pio conta que foi exatamente isso que fez com os trabalhos
dos seus 11 alunos de pós-graduação.
"Penso que o professor tem uma grande responsabilidade
na formação do aluno com relação
à essa busca de referências e de pesquisas na
Internet", opina Regina. Para o professor da UnB, o mercado
de trabalho trata de corrigir esses estudantes que cometem
plágio.
O plágio é uma combinação de fragilidades,
mas há gradações nessa violação
de direito autoral ou de ética. É importante
diferenciar uma cópia cometida por um calouro em um
trabalho de curso de um aluno de mestrado ou doutorado que
apresenta uma dissertação final copiada, escrita
por outra pessoa ou sem indicação de fonte.
Sem dúvida, este último é muito mais
grave. Legalmente falando... A questão do plágio
é, das relações do direito autoral, a
mais dissimulada é mais difícil de se constatar,
porque não é uma cópia, é uma
imitação disfarçada. "O plágio,
na verdade, nada mais é do que você pegar o trabalho
alheio, dar uma mascarada e com isso tirar proveito da propriedade
intelectual de alguém", explica o líder
do projeto do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito
Rio e advogado especialista em direito autoral e propriedade
intelectual, Eduardo Senna.
No meio acadêmico, o plágio é muito comum
com trabalhos e mesmo monografias. Porém, o advogado
acredita que além da questão das monografias
e do plágio por parte do aluno, isso está englobado
de uma maneira geral na questão da discussão
do direito autoral dentro das universidades. "Isso vem
desde as cópias de livros nas bibliotecas, o que não
deixa de ser uma violação do direito autoral
que não é coibida, até esse ponto de
trabalhos copiados, que também acabou sendo algo inserido
na nossa cultura".
Em geral, o professor quando detecta o plágio de um
aluno dá zero. Não se pensa em partir para as
medidas legais, apesar de elas existirem. "O plágio
é uma violação ao direito autoral. Plágio,
ao contrário de contrafação, não
é crime, e não pode ser punido com ação
penal, mas, sim, com ação cível",
explica Senna. O aluno que comete plágio estaria sujeito
às seguintes sanções legais: uma indenização
por dano patrimonial, uso indevido da obra; e uma indenização
por dano moral pela mesma razão, isso por conta da
subdivisão do direito autoral em patrimonial e moral.
"Nem a universidade nem o professor podem entrar com
uma ação contra o aluno. O dono da obra é
quem pode processar. Por isso que é muito difícil
de coibir isso e a história fica só no meio
acadêmico", ressalta o advogado. A técnica
mais correntemente usada para a detecção de
plágio na literatura é a das linhas assimétricas,
que nada mais é do que colocar os textos um ao lado
do outro e ver se eles têm partes idênticas. "Se
você tem um texto de dez parágrafos e seis deles
são idênticos ou muito parecidos com outro -
que mudaram com maquiagem, pode-se afirmar, com razoável
certeza, que houve plágio", verifica Senna.
O advogado lembra que não se protegem idéias,
apenas a exteriorização delas. Portanto, nada
impede que em um universo de milhões e milhões
de pessoas, duas pessoas tenham a mesma idéia, e isso
não implica em plágio. |